Há algum tempo eu penso em escrever as memórias de nosso cãozinho, mas fui adiando, tomada por outros compromissos. Mas ainda é tempo, tempo de lembrar de muitas histórias, tempo de lhe fazer esta singela homenagem.
E foi de forma dramática que tudo ocorreu, tudo o que me fez sentar aqui e recontar: dois imensos cães jovens; uma moça desesperada; uma cirurgia de emergência; dias de intensa expectativa, entre a vida e a morte.
Mas esta é uma outra história, talvez seja melhor iniciar por onde tudo começou.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O intrépido Bento

Veja As aventuras de Bento em seu novo blog: asaventurasdebento.blogspot.com !



Este é Bento, nosso novo amigo, ele hoje completa dois meses de vida. A princípio não era minha vontade ter um novo cachorro em casa. Depois da partida dolorosa de Woody, todas as lembranças nos traziam lágrimas aos olhos, e depois, cada vez mais viajávamos, e seria sempre uma preocupação com quem deixar o animalzinho.

Mas minha bem formada decisão caiu por terra em apenas alguns segundos, ao encontrar o anúncio de minha amiga no Facebook, oferecendo filhotinhos de Jack Russel, de sua cadelinha Kiara. Sem Woody, e com dois filhos morando fora, a casa havia perdido a alegria, não havia ninguém a nos receber quando chegávamos, não havia ninguém a lamentar cada saída nossa.Não resisti a falar com a filha do meio - a mais chorosa e inconformada com a partida de nosso velho amigo. Quando os cãezinhos completaram três semanas de vida fomos conhecê-los.

E o que fazer diante de uma ninhada de saudáveis e sapecas cãezinhos? A raça é de tamanho pequeno, muito resistentes, ativos e inteligentes cães. Bem que eu gosto dos que são mais altos, de porte quadrado, e não dos compridos de patas mais curtinhas, mas como não se encantar? Elegemos como nosso preferido um que tinha o pelo mais longo, e uma bola marrom em torno do olho esquerdo.

Desde então ele passou a ser nosso. Ganhou o nome de Bento - um nome que nos lembrasse de que seria para sempre bendito, abençoado. E não víamos a hora de trazê-lo para casa. Enquanto isso minha amiga nos mandava notícias frequentes. Nosso Bentinho era o mais aventureiro da ninhada, era o único que se aventurava além da porta da área de serviço, em expedição exploratória. Era também o maior dos seis irmãos.

A filha mais velha foi rapidamente convencida da vinda de um novo cãozinhos, suas convicções também desabaram em poucos minutos. Mas o menino (nem tão menino aos seus dezoito anos) não se convenceu muito da ideia. Para ele a perda de Woody doeu mais. Ele só foi avisado quando Woody partiu, não teve tempo de sofrer e deixar-se convencer do fim do nosso amigo aos pouquinhos, durante aquela difícil semana em que Woody esteve internado.

Quando Bento completou quarenta e quatro dias fomos buscá-lo, eu, e justamente o menino. Bento veio no colo dele, escalando-o e mordendo-o de todos os jeitos, enquanto ele chorava copiosamente a lembrança do velho amigo. No dia seguinte o levamos para a primeira vacina, com a ajuda do garoto, e tive que explicar ao doutor Rogério a partida de Woody, novamente o filho mais novo não pode conter um choro intenso.

Em casa Bento se adaptou imediatamente, como se sempre pertencesse a nossa família. Ficou feliz de explorar a nova casa e o quintal, aceitou com amor e muitas mordidas cada novo membro que conheceu. Ele é sem dúvida um cão intrépido, creio que com um chapéu caqui não deixaria dúvidas de ser o Indiana Jones canino. Tem uma personalidade forte, e é também um cãozinho valente (de novo!), rugindo e latindo quando não está satisfeito ou quando Quim (o Retriever Labrador do vizinho) invadiu nosso terreno. E ele só tem dois meses.

É também muito amoroso, adora dormir juntinho de nós no sofá vendo televisão (quando já cansado de nos morder e das nossas broncas - ele pega fogo!). É um cãozinho adorável e encantador e conquistou a todos rapidamente.

Não poderá substituir Woody em nossos corações e na história de nossa família, mas trouxe de novo a alegria e o movimento para a casa. Seja bem vindo Bento! Que tenha uma longa vida feliz e abençoada junto a nós!

Quem sabe se um dia você não ganha um blog só seu?

sábado, 10 de maio de 2014

Um começo


Qual criança não quer ter um bichinho de estimação? Eu mesma sempre adorei bichos e toda a natureza, e não foi diferente com meus filhos. Mas era muito trabalho cuidar de três crianças pequenas, e o projeto bicho doméstico foi sendo adiado. Enquanto isso eles criaram pintinhos, peixinhos (como morrem fácil meu Deus!) e até um caramujo chamado Rodolfo.

Então vieram as tartarugas de aquário, Tatá e Tutu. Elas cresceram rapidamente, nos obrigando a trocar o aquário de vidro por recipientes cada vez maiores...

Foi quando chegamos a um novo projeto de vida. Depois de ver enterrados numa obra inacabada o investimento num prédio da Encol, meu marido falou: agora só moro em casa! Uma procura de um ano e meio e encontramos o terreno certo, em meio a um grande gramado arborizado no Park Way. Fechamos o negócio em dois dias.

E já não havia mais desculpa para não termos um cãozinho, íamos ter uma casa afinal! A ocasião perfeita foi o Natal de 99. Fomos para o Rio de Janeiro de carro, chegamos na véspera da festa, deixamos as crianças com os avós em Jacarépaguá, e fomos para casa do meu sogro no subúrbio.

Ansiosos, pegamos o jornal disponível e fomos direto para os anúncios de cães a venda. E nada, ou quase nada, apenas um, falava de filhotes de Schnauzer em Honório Gurgel. Eu queria um Terrier Pelo Duro, mas Schnauzers são da mesma família, e sem outra opção partimos para lá.

__ É aqui mesmo! Vamos entrando, vocês estão em casa! __ quase berrou a senhora de meia-idade que nos recebeu no portão da casa no pé do morro de uma favela suburbana. E aí gritou para o filho: pega lá aqueles que sobraram, que chegou gente interessada em ver.

O rapaz subiu a escada que levava a uma lage sobre a casa, de onde vinham os latidos de muitos cães, e o terrível cheiro de fezes e urina dos animais.

A esta altura do campeonato já não tinha como fugir, embora minhas pernas desejassem correr dali. Fiquei aflita com a barulheira e o fedor que vinha lá de cima, e que obrigava a mulher a gritar cada vez mais alto. De vez em quando ela gritava a toda voz: SILÊNCIO!!! lá para cima, como se os animais fossem obedecer.

O rapaz voltou com dois filhotes nas mãos, já com dois meses e meio de idade. Sujos, encardidos e fedidos. Uma fêmea pequena, e um macho maior.

__ Ah mãe, acho que vou ficar com esta daqui. Olha como é esperta!

E realmente, a mocinha mostrava vivacidade e atenção, enquanto que o macho era devagar e moleirão. Mas havíamos combinado que escolheríamos um macho, e teria que ser aquele.

Eram os últimos filhotes dos dezesseis nascidos naquela temporada. Os genitores eram quatro machos e quatro fêmeas, foram doados por um criador para aquela família, que aumentava seus recursos (se é que tinham algum outro) com a venda dos filhotes. Os nomes eram todos russos, tipo Natasha, Bóris, Vlad, etc., anotados em um monte de registros de pedigree que a mulher veio nos mostrar.

Os cães também vieram, trazidos um a um pelo rapaz. Eram bonitos, mansos, meio gordinhos e assustados, mas estavam com boa aparência e o pelo cortado. Todos sal e pimenta, todos de tamanho um pouco maior que os cães desta raça que eu costumava ver nas quadras de Brasília.

__ Os filhotes ainda não foram registrados, por isso o preço é melhor. Mas o senhor pode registrar!

Era pegar ou largar. Dia de Natal, um cachorrinho encardido e meio bobão, crianças a serem surpreendidas, meu coração aflito e minha vontade de correr fora dali.

__ Só tenho cheque __ falou meu marido.

__ Ah não, não aceito cheque! Sabe que até meu filho já passou cheque sem fundo?

__ Oh mãe, que isso? Isso lá é coisa que se fale? O que eles vão pensar da gente?

__ Então a senhora vai ter que esperar eu pegar dinheiro no caixa eletrônico __ tornou a falar o pai das crianças que não sabiam que estavam prestes a ganhar um cãozinho.

E saímos em busca de um caixa eletrônico de banco. E eu já nem sabia se queria ou não o bichinho. __ Será que é mesmo de raça? O pelo dele é meio avermelhado, ou será só sujeira?

Mas meu marido estava resoluto, voltamos lá com o dinheiro e saímos com o cãozinho tímido e fedido no meu colo.

__ Que nome vamos dar a ele? Lucky, afinal creio que ele é um sortudo de sair daquele lugar! __ e vieram outros nomes à nossa mente.

Na casa do meu sogro dei-lhe um banho caprichado, e o bichinho ficou com o pelo todo arrepiado. Arrumamos um caixa de papelão e uma fita vermelha (foi o melhor que consegui para um presente de Natal improvisado).

Chegamos em Jacarépaguá, com a caixa balançando e gemendo nos meus braços. As meninas entenderam tudo e com lágrimas nos olhos de pura felicidade, tiraram seu presente da caixa e o encheram de beijos e afagos. Acho que nunca as vi tão felizes assim...

Woody. O fiel amigo do Buzz Lightyear. O filme Toy Story era o sucesso de então, e as crianças escolheram este nome. A menina mais velha tinha dez anos, a do meio oito, e o menino três. Naquele momento elas estavam mais prontas para um cachorrinho; o menino só queria lutar, não sabia ainda, mas havia encontrado seu parceiro.

Nosso fiel amiguinho se revelou bem tímido a princípio. Não ouvimos um latido seu, até que completasse quatro meses. Mas bem antes disso, assim que chegamos em Brasília, ele se sentiu perfeitamente bem, estava em casa, e a família agora parecia completa!

(foto: Três crianças e Woody no Natal de 1999, em Jacarépaguá)

Uma nova vida para Woody



De uma forma que os cães entendem, e que nós entendemos que os cães entendem, Woody entendeu que era meu filho, e que desta forma era irmão daquelas crianças, com todos os direitos que elas tinham, e com bem menos obrigações que elas. Eu entendi tudo perfeitamente e assumi meu papel de mãe de um filho canino.

Woody crescia rapidamente. As meninas limpavam sua sujeira, davam lhe banho, colocavam comida e água para ele, e também o levavam para passear sempre que podiam. É claro que eu as ajudava em todas as tarefas, mas fazia parte do trato "projeto cãozinho" que elas se responsabilizassem em todos os cuidados.

O outro irmão, naquele momento não assumiu obrigações, pois tudo o que queria era um companheiro para lutas, e o encontrou em Woody. Com sua espada de plástico desferia golpes mortais no ar, acompanhados de gritos apropriados, e volta e meia derrubava o pequeno cão no chão. Woody tratou de se defender, e daí por diante era bastante comum encontrar as marcas de seus dentes nos braços e mãos do menino.

A solução foi colocá-lo, o menino, para adestramento em uma academia de judô, onde ele ganhou a alcunha de "pé de alface", por ser o mais jovem lutador do lugar. O adestramento deu mais que certo, e o menino seguiu até os 16 anos no judô, chegando à faixa marrom, só parando por conta dos estudos que lhe exigiram mais tempo.

Com a academia, o garoto passou a desferir golpes de judô no seu irmão canino ainda por algum tempo, e este continuou a lhe desferir dentadas e rugidos, além de lhe roubar os pães do café da manhã.

Parecia uma tarefa fácil e divertida. O menino saia da mesa com sua bisnaguinha com queijo derretido na mão esquerda, já que era canhoto, e Woody acompanhava o movimento de sua mão para frente e para trás com a cabeça, enquanto andava ao seu lado. Na menor distração o pão passava diretamente para a boca do cão. Logo que cresceu Woody passou a roubar o pão do garoto diretamente na mesa, era olhar para o lado e lá tinha ido embora a refeição...

Sim, com tantos pães roubados o cão cresceu forte e robusto, tornou-se um Schnauzer miniatura maior que a média, e volta e meia derrubava as meninas em seus passeios pelas quadras de Brasília. Woody era agora um cão valente, e se bem que tinha muitos outros amigos cães na quadra, com os quais corria, rolava e brincava em seus passeios, também era capaz de enfrentar qualquer cão ameaçador, não importa quantas vezes maior que ele próprio.

Woody era um alerta cão de guarda. No apartamento, ao menor som estranho vindo além da porta da entrada, ele latia alto e ameaçadoramente. Mas em casa com a família e nossos amigos (exceto eventualmente com o menino) ele era dócil e amistoso. Devo dizer que era também muito ciumento e que nunca foi dado a arroubos melosos de lambidas.

Era também muito inteligente, compreendia tudo o que se falava e que acontecia na casa, mas como acontece com a maioria dos cães desta raça (senão todos), Woody nunca aprendeu a andar de coleira. Impetuoso e independente nós é que éramos arrastados a seu bel prazer em zigue-zágue no seu afã de marcar território por sobre a urina de todos os outros cães da quadra!

Mas feliz mesmo nosso cão ficava ao visitar o terreno de nossa futura morada! Naquele momento o condomínio não estava pronto, e o que havia era um imenso gramado de vinte mil metros quadrados, onde grandes árvores se espalhavam cautelosamente.

Woody reconheceu aquele território como seu e pronto! Corria e rolava, até que seu pelo ficasse absolutamente emaranhado com os picões, e nós desesperados ante a impiedosa tarefa de limpá-lo. Mas como impedi-lo de extravasar sua alegria? Paciência, já no carro fazíamos um esforço conjunto de livrá-lo dos grudentos picões.

Na primeira semana de janeiro de 2000 começamos a obra da casa, e Woody, já com um ano de idade, revelou-se quase sádico com os pobres operários. Eu deveria ter filmado as cenas, mas naquela época os celulares ainda não tinham filmadora. O cão chegava de mansinho por trás, posicionava a cabeça junto ao calcanhar do infeliz, e então latia o mais alto e forte que podia. O sujeito dava um pinote e ficava lívido de susto, e se pudesse rir, sei que Woody daria gargalhadas de sua façanha!

Mas logo os operários teriam sua vingança, pois a contragosto o cachorro era obrigado a tomar banho por ali mesmo, para tirar não só os picões, mas limpar a lama e o cimento que lhe grudavam no pelo.

Foi a obra mais rápida da qual tenho conhecimento, em cinco meses ficou pronta, e no sexto a casa recebeu a pintura e plantou-se o jardim. No início de julho do mesmo ano nos mudamos para lá, ao mesmo tempo que as instalações do condomínio ficaram prontas e o portão foi colocado. Woody tornou-se o dono do pedaço, por um ano moramos sozinhos, sem vizinhos, no espaçoso condomínio.

Ele era agora nosso valente segurança, e não permitia que os pássaros pousassem no terreno, caçava os lagartos (e de vez em quando o víamos passar com um rabo verde pendurado na boca...), corria e latia sob os aviões que ousassem infringir nosso espaço aéreo, e é claro, latia assustadoramente ao portão diante de qualquer intruso, principalmente se tratando de motos e caminhões...

No entanto Woody era muito amistoso com todos os nossos amigos, ele adorava festinhas, e, do seu jeito, falava com todas as pessoas, e depois sentava-se ao lado para participar das conversas. Ele só não gostava de festa na piscina, ficava desesperado, acho que tinha medo que alguém se afogasse...

(fotos: Woody no banho com as meninas e a vizinha; a ferinha em seu uniforme de judô; a menina mais velha com Woody no apartamento; Woody e as três crianças na nova casa)

Novos amigos


Na nova casa Woody podia correr atrás das aves e dos aviões, caçar lagartos, latir enfurecidamente contra as motos e caminhões que por ventura passassem, mas desta vez não havia outros amigos cães para brincar e rolar na grama, como quando morávamos no apartamento e tínhamos que descer com ele para passear.

Nosso cãozinho ganhou um espaço privilegiado na casa, seu colchão foi instalado na sala de estar. Isto mesmo, bem em frente ao janelão que dava para frente da casa, a cerca e portão. Juntinho à porta da casa, ideal para um cão de guarda, como ele.

A sala também lhe dava a oportunidade de mudar de cama sempre que desejasse. Tinha o sofá, o sofá da TV, e a chaise longue, que a menina do meio chamava insistentemente de daisy. Por que daisy? Não sei dizer, mas a menina do meio tinha o hábito de mudar os nomes de algumas coisas, dando-lhes novos nomes, no mínimo peculiares.

Acho que de todas as possibilidades que nosso Woody tinha para deitar a daisy era a sua preferida, mas quando ficava quente, o chão frio era a melhor opção. Mas faltavam-lhe os amigos, e ele resolveu caçá-los nos quartos da crianças.

Subia as escadas, pulava nas camas, e de lá arrastava seus novos amigos diretamente para sua cama na sala. Os mais pesados eram encontrados pelo caminho e no meio da escada, era o caso de um grande orangotango, e da Lassie. Esta era um praticamente um caso de amor, impossível é claro, entre um animalzinho de verdade e um cão de pelúcia quase do mesmo tamanho.

De tanto ter que subir com os bichinhos de volta, acabamos por desistir da tarefa e doá-los ao ávido cão de verdade. A Lassie foi a primeira que ele ganhou, depois acabamos abrindo mão do carneirinho e do jacaré também. Mas quando nos demorávamos mais na rua, era comum encontrá-lo com uma creche montada em sua pequena cama! Lá estavam cachorrinhos, o zangado e outros bichos, além dos já doados.

Quando chegava uma visita, ele as recebia com um de seus amigos na boca, enquanto balançava os quadris e o toco do rabo. E também passeava com seus amiguinhos pelo quintal, volta e meia os esquecendo por lá, até que nós os encontrássemos, não raro ensopados de chuva...

Mais tarde eu o presenteei com uma arraia cinza que trouxe do SeaWorld. Como era achatada servia-lhe perfeitamente de travesseiro. Assim Woody oficialmente tinha quatro amigos de pelúcia. Ele nunca os destruiu, permaneceram perfeitos.

Aos poucos ganhamos vizinhança, e bem à frente um cão labrador preto, grande e bobão. Eventualmente fugia de sua casa e entrava na nossa. Woody avançava ferozmente para ele, e um dia eu o encontrei pendurado no traseiro do cachorro, já no colo do seu dono que tentava levá-lo de volta...

A verdade é que ele nunca fez amizade com seus vizinhos caninos. Quin, um Retriever Labrador, chorava para brincar com ele, mas Woody não lhe dava bola. A Mel, uma Cocker da cor do nome, não gostava dele, e no mais todos os cães eram machos e decididamente não se davam bem.

Acho que Woody preferiu a família humana, e minutos antes que alguém chegasse em casa ele se dirigia animado para esperá-lo na garagem. Como é que ele sabia? Não sei, mas ele então fazia uma festa danada. No horário em que eu chegava trazendo as crianças da escola ele estava sempre em seu banho de sol na grama, pronto para recepcioná-los com saltos e latidos felizes.

Ele só não gostava de despedidas, nem olhava para nós, ignorava nossas saídas de casa. Cães são assim, aproveitam o lado bom da vida e fazem pouco caso do que não lhes agrada. São sábios, e grandes amigos.


(Fotos: Woody com três de seus amigos de pelúcia; Woody na Daisy; Woody, seus quatro bichinhos e o menino já crescido)

Woody valentão!


Não sei ao certo se Woody gostava de viajar, o que sei é que ele não gostava de ficar sozinho, e odiava que viajássemos sem ele... Lembro de uma vez em que nos preparávamos para sair de madrugada de carro, ele acordou e enquanto colocávamos a bagagem no automóvel, ele pulou no assento da frente e se grudou nele.

Acho que ele ficou pelo menos umas três vezes mais pesado. Com pesar o colocamos de volta em sua cama na sala, conversamos com ele, o afagamos e nos despedimos dele. Descobrimos que a melhor forma de deixá-lo era em casa, aos cuidados da Lu, nossa fiel escudeira, que o mimava talvez mais que nós.

Mas sempre que podíamos o levávamos conosco. Tínhamos um Ford Ecosport e gostávamos de viajar. Woody viajava junto dos meus pés, com seu potinho de água e um pacote de biscoitos caninos,  afinal a viagem podia ser longa.

Programamos uma viagem ao sul, até Santa Catarina, casa de minha tia junto ao mar. Como de costume saímos de madrugada com Woody aos meus pés. A viagem foi tranquila, apesar do calor e do cansaço. Fizemos uma parada no Rio, e chegamos no dia seguinte à tardinha.

Minha tia tinha então três cães da raça Cocker Spaniel, a mãe e dois de seus filhos. O macho se chamava Cookie, tinha o pelo negro e lustroso, era roliço e um pouco maior que o nosso mascote.

De cara eles já não se entenderam. Rosnaram e latiram ferozmente um para o outro, e Cookie deixou claro que aquele território já tinha dono.

Uma pena, afinal havia um grande gramado à frente das várias casas de veraneio, e Woody ter que ficar preso na casa era lamentável. Era também vergonhoso que nosso cãozinho não soubesse  respeitar o dono do local...

No dia seguinte fomos fazer o que viemos fazer naquele pedaço do paraíso, entre o rio, as dunas de areia branca, o mar selvagem e os rochedos, pegar uma praia!

Partimos cedo pela manhã com Woody debaixo do braço, e o enfiamos no pequeno barco que nos levaria até as dunas que escondiam nosso destino. Algumas remadas e alguns ajustes entre os remadores inexperientes e chegamos ao outro lado.

Que felicidade para Woody! Ele correu saltitante explorando seu novo cenário, enquanto escolhíamos um local para ficar. Àquela hora da manhã haviam poucos banhistas e diante do mar gelado, decidimos pela beira do rio, de água mais tépida.

Entramos na água e chamamos nosso amiguinho. Ele primeiro titubeou, mas a seguir se animou e nadou como um cãozinho perfeitamente afeito aquele novo ambiente.

Até aí tudo bem, mas o problema começou quando voltamos para a areia e Woody lembrou-se de marcar seu novo território, justamente nos montinhos de areia dos banhistas, e antes que conseguíssemos agarrá-lo ele carimbou a bolsa de um homem.

Seguiram se protestos e caras feias por todos os lados, e tivemos que pegar o barquinho de volta para a casa. Woody satisfeito com suas proezas, e nós com o rabo entre as pernas!

Desta vez, nem praia! Ele ficou chorando, trancado na casa, enquanto voltávamos à praia idílica.

Mas o pior ainda estava por vir. Eu estava sentada na varanda da casa, com Woody ao meu lado, lá adiante, a uns 50 metros de distância, estavam minha tia e meu tio com seus três cães. Cookie sentiu que a distância era segura, e para aproveitar melhor a tarde fagueira, ele se jogou de costas na grama, coçando-as ao que parece deliciosamente...

Quase deliciosamente! Woody disparou em sua direção, não houve como segurá-lo. Muito antes que eu o alcançasse, ele já havia se jogado sobre a barriga de Cookie, e agora os dois rolavam juntos pela grama entre dentadas e rugidos. Eu, meu tio e tia nos debruçamos sobre eles, até conseguir apartá-los, cada um com seu cão nos braços.

Muito bem Woody valentão! Só aprontou nas férias, encheu-nos de vergonha, e ainda quer viajar de carro?Assim não dá!

Na volta ainda fizemos um pernoite de hotel em algum lugar de São Paulo. Entramos com o cachorro escondido em uma pesada sacola. Desta vez ele não deu vexame, não latiu e nem mijou no quarto. Já chega também!

(Fotos: Woody na praia e no barco)

Woody caçador


Descobrimos os talentos do nosso amiguinho. Como todo cão ele era fiel e amoroso com seus donos; era também um bravo cão de guarda, e seus latidos algumas vezes mais possantes que seu modesto tamanho; como bom vigilante não deixava em paz nenhum outro animal no terreno; mas descobrimos também que ele era um caçador.

Uma vez matou um gatinho intruso, façanha nada elogiável. Por várias vezes caçou impiedosamente os lagartos do jardim. Víamos um rabo longo, fino e verde balançado pendurado de sua boca, então já era tarde: quando o alcançávamos o lagarto já estava morto. Até aqui nada que pudéssemos enaltecer.

Mas um dia, na época em que os vizinhos dos fundos realizavam obras em seus terrenos, Woody latiu tremendamente junto à porta da cozinha. A tempo o impedimos de atacar - ou ser atacado - por uma cobra cascavel que ameaçava entrar em casa. O zelador a matou.

Em outra época, de seca inclemente em Brasília, fomos visitados por vários  inconvenientes camundongos. A primeira vez que vi um deles foi à noite na sala. Vi algo preto passar velozmente e se esconder atrás do sofá. Fiquei na dúvida se era uma barata. Afastamos o sofá e a coisa tornou a correr e a se esconder. Não era uma barata. Mas também não era fácil de pegar.

Foi necessário um trabalho em família, e embora a menina do meio não ajudasse gritando de cima da daisy, os outros membros da família se exercitaram com vassouras, rodos e empurra empurra de sofás. Woody ainda não o tinha visto, mas sentiu um cheiro diferente e o procurava por toda parte.

Se bem me lembro daquela vez o bichinho escapou. Encontrávamos seus rastros nos fios do som roídos, na ração escondida atrás da geladeira e do fogão. Ele era tão diminuto que passava pela fresta de 1 cm debaixo da porta da cozinha, tentamos vedá-la, nem sempre com sucesso.

No entanto Woody estava agora a sua caça, e seus dias contados. Quando ele latia o seguíamos em volta da casa, ou na área de serviço ou cozinha. Não tardou a encontrá-los, e quase diariamente ele matava mais um. Era gritar: rato Woody, rato! E ele se punha em ação.

As crianças não aprovavam muito, mas eu dava nomes para os bichinhos, Jerry, Tom, Lulinha, e outros que nem me lembro. Assim se foram uns seis ou sete ratinhos. Eu dava nomes e até tinha dó de matá-los, afinal eram bonitinhos, roliços, cinza/escuros, com orelhinhas e olhinhos redondos e focinho curto. Mas o que fazer?

Uma vez meu marido e Woody encontraram um na área externa à cozinha. Meu marido deu-lhe uma pancadas com o rodo, e não suportando mais tamanha violência, colocou seu corpinho em um saco e o jogou no terreno vazio ao lado. Disse que nunca mais matava um animal. Na manhã que se seguiu àquela noite encontramos um rastro de sangue pela cozinha até a geladeira, era a volta dos que não se foram... Depois Woody completou o serviço.

Nosso cão se mostrou implacável com os pequenos camundongos naquela temporada, e depois eles nunca mais retornaram. Desta vez Woody mereceu nossos elogios como bom caçador que era!

Uma namorada para Woody


Woody cresceu forte e saudável. Tinha um belo porte, uma bela pelagem, era atento e inteligente. Enfim, um belo espécime de sua raça! E tantas qualidades nos faziam sonhar com Dundinhos, pequenos Dundizinhos correndo pela casa!

Mas esbarramos em dois problemas: o primeiro era que não havíamos registrado Woody, ele não tinha pedigree, e os donos das moças casadoiras pediam um. O segundo problema era que os criadores buscavam desejavam cães cada vez menores da raça, e Woody estava acima da média no quesito tamanho.

Aqui em Brasília só encontramos outro cão desta raça com o tamanho do Woody, se chamava Ulisses (sugestivo!), e tinha o mesmo problema para arrumar namoradas. As fêmeas eram em geral menores, mas quanto maior a diferença de tamanho, maior o risco da gestação terminar em cesariana.

Mas sempre deixamos nos pet-shops o contato para um enlace matrimonial, e um dia a dona de uma cachorrinha da raça de Woody ligou. Eu não me lembro do nome dela, acho que era Lua ou algo assim, aqui vou chamá-la de Lola.

Pois bem, Lola veio para passar uma semana conosco. Foram logo se cheirando, e Woody logo partiu para as vias de fato. Deixamos os dois à vontade, e creio que eles se entenderam. Depois disso se tornaram bons amigos, como um casal de longa data.

Era bonitinho de se ver. Onde estava um, estava o outro. Dormiam juntos na cama do Woody e se tornaram companheiros inseparáveis.

Lola era bem menor que Woody e sua pelagem um pouco mais clara. Ela não tinha seu porte atlético, e as pernas eram mais curtas. Seu latido era baixo e fininho, tão diferente do possante latido de nosso cão, e ela ficava cansada e arfando com facilidade.

Até para subir no sofá, ela precisava de nossa ajuda, ou não conseguiria sozinha. Comecei a desconfiar de que ela não tinha boa saúde. Será que tinha algum problema cardíaco, ou seria asmática? Mas guardei minhas suspeitas comigo mesma, afinal não queria parecer uma sogra enjoada.

Lola voltou para sua casa, e como não recebi mais notícias, liguei para a dona. Descobri que Lola não estava bem e havia sido internada. Depois disso não quis mais ligar e nem tive mais notícias dela.

E nós ficamos sem nossos Dundizinhos... Por outro lado seria difícil convencer a menina do meio a dar os cachorrinhos quando nascessem.

Ele já estava com oito anos e esta foi a única oportunidade que nosso cãozinho teve de se reproduzir. Uma pena!

(Foto: Woody e Lola no jardim)

Um cão falante



Uma vez vi uma reportagem sobre o cão cantor de Rita Lee, também um Schnauzer. Não que ele fosse realmente afinado, eram mais uma coleção de uivos empolgados em um ritmo autêntico!

Talvez a comunicação vocal também seja um talento desta raça, o caso é que um dia descobri que Woody falava, do seu modo, mas realmente comunicava seu recado.

Uma vez eu o ouvi mugir como o vaca. De onde ele tirou esta ideia? Não sei, mas creio que talvez tenha sido uma tentativa de se comunicar. Outra vez eu estava na cozinha e ele de pé ao meu lado, não lhe dei muita atenção, e então o ouvi murmurar: __ Hum, hum, hum, hum!

Então lhe dediquei meu tempo: __ O que você quer Woody? Quer um biscoito?

E a resposta foi: __ Hum, hum, hum!

É claro que entendi. Ele compreendeu isso e aprendeu a falar de sua forma peculiar. Cada vez que desejava alguma coisa de nós, ele chegava ao nosso lado e...

__ Hum, hum, hum, hum!

Mais ou menos isto, mas com muito efeito. __ O que você quer Woody? Quer comer, quer passear, quer comer uma coisinha gostosa?

E ele nos guiava na direção de seu desejo.

Quando chegava visita, ele se postava ao seu lado, para papear é óbvio. Caso não recebesse a devida atenção ele dava início à conversa: __ Hum, hum, hum, hum!

E sempre dava certo! Ganhava atenção, talvez um carinho na cabeça e nas orelhas, uma palavra reconfortante! Ele ficava feliz e se deitava ali por perto, ou ia para outro canto da sala.

Numa festa, ele se apresentava a cada um dos convidados, se não lhe notassem ele mandava logo seu Hum, hum, hum, hum!

Ele se tornou tão hábil em seu tipo de conversação que não o esqueceu nunca mais, mesmo quando foi perdendo a audição, ele continuou a falar. Mesmo quando não mais atendia aos nosso chamados, quer lhe chamássemos de Woody, Dundi, Dundun, Dudu, Bonitinho, etc., ele nos chamava e era sempre atendido!

Uma vez o deixei na clínica veterinária para uma limpeza de dentes. Fui buscá-lo à tarde, ele me aguardava ansioso. Chegamos em casa e ele foi para a sala. Logo depois fui atrás dele, e ele desatou então a falar num tom lamurioso e indignado. Sentei-me nos degraus mais baixos da escada, para melhor ouvi-lo durante longos minutos:

__ Hum, anhn, inn, onnn, ahh, hum, ain, inn...

O relato completo de praticamente uma sessão de tortura... É lógico que entendi que o haviam segurado, não haviam sido nada gentis, que ele havia se sentido ultrajado, humilhado, maltratado, enquanto aquela maldita máquina lixava seus dentes sem dó nem piedade!

Lhe afaguei, lhe consolei, lhe disse o quanto era importante ter os dentes livres dos tártaros para prevenir uma infecção. Por fim lamentei junto com ele. Ao menos creio que ele se sentiu aliviado em seu desabafo tão humano, ou como disse uma amiga: "humanimal"!

O cão sábio


Nos fundos do terreno tínhamos um grande gramado e duas balizas de futebol, que depois da inauguração da casa, raramente foram usadas. Com as secas inclementes a grama ficava como palha e nem Woody costumava passear por lá, o campo ficou por conta das formigas e cupins.

Mas houve um dia em que meu marido perguntou: por que não plantamos um pomar lá atrás? E eu respondi: sim! Por que não? Podemos plantar um pomar em volta do salão de festas!

__Que salão de festas?

Levaram alguns meses até que eu o convencesse, e aos demais da casa, da necessidade de fazermos um salão de festas. Mas ele saiu, e em volta dele um pomar e jardim. Isto foi no meio do ano de 2008. A inauguração foi no aniversário de dezenove anos da filha mais velha, no final de abril.

O chão estava ainda no cimentado, e eu o cobri de folhas de ficus. Puxamos a fiação e penduramos as lâmpadas no madeiramento do telhado, por que telhas ainda não havia. Coloquei velas em saquinhos de pão com areia, e marquei o caminho até o salão.

Foi um sucesso, a primeira de muitas festas que demos por aqui. Woody ficou só felicidade, e ficava de lá para cá, e de cá para lá, acompanhando as visitas e participando das conversas! É claro que se algum salgadinho caísse no chão ele estava lá para recebê-lo também. Logo depois do salão ficar pronto, no aniversário meu e de meu marido e, fizemos uma festa julina, com direito a fogueira ao lado.

Agora tínhamos nosso espaço de comemoração de datas e eventos, e eu o meu espaço para cursos e atendimentos. Assim Woody se tornou um cão holístico! Participou de todos os cursos, ficava no meio do salão durante as meditações de Kwan Yin, juntava-se ao grupo no tatami que eu montava, deitava ao lado da maca durante os atendimentos. Dia de curso ele pulava feliz, enquanto eu arrumava o salão. Ele se tornou nosso mascote.

Aproveitei, e pelo sim, pelo não, também o iniciei no Reiki. Afinal mal não podia fazer. Não vou dizer que foi por causa dos cursos e iniciações, acredito que mais pela maturidade, o caso é que nosso cãozinho foi se tornando cada vez mais sábio. Mais sereno e tranquilo deixou em paz os passarinhos e lagartos do quintal. Deixou de ser ciumento e brigão, e com a perda gradual da audição já não se importava com os trovões ou com fogos de artifício.

Passou a gostar de maçãs e peras, e toda semana eu comprava umas quinze só para ele. Não que desprezasse a pipoca nos dias de jogo de futebol, mas agora sua alimentação estava mais equilibrada e ficou mais fácil mantê-lo no peso.

Só não houve jeito de ensiná-lo a andar de coleira. Ele gostava de passear lá fora, ainda fazia um escarcéu, latindo e chorando, se nos visse de short, tênis e boné. Tentávamos sair de casa escondidos, mas de alguma forma que não sabemos, ele sempre nos descobria, e roubava nosso tênis ou meia, antes que pudéssemos colocá-los.

Do lado de fora do condomínio éramos arrastados impiedosamente em zigue-zague. De nossa parte tentávamos freá-lo e na volta ele já estava tão cansado que se jogava no chão, e tinha que vir no colo... Era cansativo também para nós.

Então encontramos a solução: passamos a passear com ele dentro do condomínio, sem coleira, completamente à vontade. No portão ele disparava em direção às mangueiras, dava uma volta completa e ficava satisfeito. E agora podíamos caminhar lá fora.

Passou a fazer parte de seu hábito diário, se encontrasse alguém disponível em casa, ele o chamava para passear com ele, todos os dias!

Ah! Le Leque, Leque, Leque, Leque!



Uma vez sonhei que eu tinha um gatinho branco. Peludo, fofinho, manso e muito tímido o meu gatinho! Seu sonho era ser um astronauta...

Uma noite Woody latia na churrasqueira. De repente ouvimos miados. Acendemos as luzes para conferir, e pusemos o cão para dentro de casa. Lá estava, no madeiramento do telhado um lindo gatinho branco. 

Sem nenhum estranhamento ele desceu até nós, ronronando e passando seu rabo macio em nossas pernas. Era claro que era um gato doméstico, fugido de alguma outra casa. Deixamos ele lá fora e entramos, mas ele ficou junto à porta de vidro pedindo para entrar.

Levei água e ração do cachorro para ele, e ele comeu tudo avidamente. Depois continuou na porta miando. Não resistimos e o encondemos no quarto da filha do meio, afinal ela é a mais aficionada dos bichinhos na casa.

Achamos que ele, ou ela, podia dormir no banheiro das meninas, mas acabamos por descobrir que gatos não dormem à noite, e nesta noite não deixou as meninas dormirem...

Mas o dia amanheceu e examinando o gato com toda a ignorância de gatos, concluímos que era "ela". Marie ficou muito à vontade na cozinha, e Woody ficou com o resto da casa. Tratamos também de fazer uma campanha no Facebook à procura de seus donos originais.

Enquanto isso Marie teve tempo de nos conquistar. Improvisamos uma caixinha de areia, comprei ração de gatos, e ela foi logo ganhando peso. De dia eu a deixava passear no quintal, longe do nosso amigo cão, sempre de olho nela. Para completar resolvemos dar-lhe um banho, a especialista é a filha mais velha, ela dá o melhor banho no Woody, mas desta vez levou muitos arranhões das unhas afiadas de Marie!

A filha do meio tratou de fazer a escova nela, que nem faz com o cão, e valeu à pena! Marie estava agora branquinha, com pelo macio e cheiroso! Ah, como são encantadores os gatos! Confesso que me apaixonei por ela, tão elegante e charmosa, tão dócil e meiga! Que classe! Mas a filha mais velha ficou neutra aos seus encantos, e os homens da casa franziram lhe o nariz. O garoto não gostou nada nada quando ela resolveu urinar bem em cima de sua mochila!

Duas senhoras vieram de longe para ver se a gatinha era Felícia, sumida já a uns dez dias. Mas não era, e elas foram embora decepcionadas. Como o tempo estava passando resolvemos apresentá-la ao cachorro da casa.

Woody na "daisy" com as meninas, Marie no meu colo. Se fosse em outros tempos, de Woody caçador, este encontro seria impossível, mas desta vez ele ficou curioso. Marie, por sua vez, já devia ser acostumada com cães, pois não se importou nem um pouco com a proximidade do cão.

Por fim cheiraram-se, e a gata deu por fim ao encontro, espanando com o rabo peludo o focinho do outro. Estavam apresentados, e dali em diante, Marie resolveu tomar conta da casa. Na verdade acabamos descobrindo que não se tratava de gata, mas de gato. A descoberta foi de Lu, a fiel escudeira, que o examinou com cuidado e afirmou: olha aqui as bolinhas dele!

                   

Já que não era mais Marie, acabamos cedendo à música do momento, e o chamando de: Ah, Leleque! Pois bem, Leleque deitava-se elegantemente do degrau de madeira da casa, e Woody só olhando, pois um portãozinho o impedia de chegar lá.

Leleque deitava-se na mesa lateral, entre as estátuas de Rama e Cita e de Parvati, e Woody só olhando... O cão deu então de comer a ração do gato, e de beber a água do mesmo. Chateado, não fazia mais festinha para nós quando chegávamos. Tentava se aproximar do gato, mas tudo que ganhava era uma espanada de rabo!

Woody estava entrando em depressão! E eu disse ao Leleque: você tem que conquistar é o cão! Tem que lamber as orelhas dele, fazer massagem com suas patinhas nas costas dele! Se você o ganhar você ganha a casa!

Mas Leleque nem aí. Pensei que se ficássemos com o gato, Woody não duraria mais quatro meses. Fiz uma campanha por email: alguém quer um lindo gatinho branco de olhos verdes? Foi então que resolvi mostrá-lo a uma amiga que veio aqui em casa: você não quer um gatinho? Não poderemos mais ficar com ele, ou perderemos o cão!

__ Bem que a gente estava querendo arrumar um bichinho de estimação para meu sobrinho... Vou perguntar para ele e para minha irmã, e depois te ligo.

A resposta foi afirmativa, e no sábado, uma semana depois da chegada de Leleque, a moça com o sobrinho foi pegá-lo lá em casa. Como eu não estava, a filha mais velha ficou de entregá-lo. Mas quem disse que ele queria ir? Leleque se agarrou em seus braços, afinal já se sentia dono do pedaço e estava muito à vontade pela casa.

Foi a contragosto. Ficamos pensando se ia dar certo. Mas minha amiga ligou alguns dias depois. O menino de onze anos se apaixonou pelo gatinho, não queria nem ir para a escola, para ficar cuidando dele! Disse também que estava treinando para um dia ser pai um dia! 

Leleque ganhou o nome de Eros e um novo lar. O menino amoroso ganhou seu bichinho de estimação. E nós ganhamos Woody de volta! Ele esqueceu o bichano e voltou a ser o mesmo cão festeiro e companheiro de sempre!

Esta é uma história com final feliz! Ah! Leleque!


(fotos: Leleque entre Rama e Cita, e Parvati; na cama da filha do meio com o cão; Leleque ainda encardido)

Pega ladrão! Pega ladrão!


Havia noites em que nosso cãozinho latia muito, e não há como precisar em que situações ele latia por conta de algum gato, rato ou gambá aventureiro, ou se por conta de algum outro tipo gatuno... De toda forma, muitas vezes levantamos, averiguamos, ou simplesmente o soltamos para que fosse à caça. Depois de muitas voltas pelo terreno, muitas cheiradas e latidos, ele voltava, e a gente podia dormir sossegados.

Mas em uma manhã, logo que fui acordar o filho mais novo para o colégio, recebi a intrigante pergunta pela frente: Mãe, cadê a minha mochila?

__ Como assim, cadê sua mochila?

__ Eu a arrumei ontem à noite e deixei em frente à estante, mas não está aqui.

Depois de uma vasculha rápida pela casa eu o levei para o colégio sem mochila, assim que a encontrasse eu a levaria para ele.

__ Mãe, tem mais uma coisa, lembra que ontem você deu carona para o André e ele deixou cair a carteira no carro? Eu coloquei a carteira dele na mochila, para devolver hoje.

Uma vasculha mais detalhada foi feita, mas nem Lu, e nem eu, encontramos a mochila. Lá pelas tantas da manhã o sol entrava pela janela da cozinha, e a luz fez me ver que a janela estava suja de terra. Terra? Chegando mais perto dava para ver as marcas de uma mão suja de terra. Ao lado da janela, na bancada de granito claro também. Colocando os olhos na altura da bancada dava para ver a marca de uma mão suja sobre ela.

Bem que quando levantei me dei conta que a tal janela estava aberta, estranho, pois eu tinha quase certeza de tê-la fechado ao ir dormir. Então tudo fez sentido: o meliante tinha se apoiado na janela da cozinha para alcançar o telhado, de lá entrou pela janela do quarto do garoto, que dorme com ela entreaberta. Encontrou a mochila novinha, mas não deu tempo de tirar os livros e cadernos de dentro, pois Woody começou a latir ferozmente - eram onze horas da noite -, o cara só teve tempo de descer correndo as escadas, saltar sobre o cão e se jogar pela janela da cozinha.

A menina do meio confirmou o horário, ela ainda estava acordada, mas não saiu do quarto. Logo depois Woddy parou de latir.

Liguei para o filho mais novo e avisei: infelizmente sua mochila foi roubada!

__ Então veja se em cima da mesa está o leptop do papai, eu o estava usando ontem à noite.

Não, não estava sobre a mesa. O sujeito colocou o laptop na mochila também. Velhinho o laptop, já tinha dado problema algumas vezes, nem valia grandes coisas, só mesmo para aborrecer. Ainda saí andando pelos condomínios, vendo se em alguma lixeira eu encontrava o material de escola do menino, que não ia ter utilidade para o camarada, mas nada, voltei de mãos vazias.

Ele só não levou mais coisas graças ao Woody, que ao descobri-lo (de certo pelo cheiro, já que sua audição não era mais a mesma), o fez fugir às pressas. Naquelas semanas em que a polícia esteve de greve nosso condomínio foi visitado várias vezes, e também o tênis novo da filha mais velha, que secava no sol, sumiu.

Sem polícia, e com ladrões de mochilas à solta, o jeito foi subir a grade e o muro junto ao portão de entrada do condomínio.

Mas mesmo depois desta providência, tivemos um novo episódio. Estávamos eu e meu pequeno vigilante em casa, eram umas sete horas da noite e Woody latiu muito lá na frente da casa. Dali à pouco ouvi: pega! Pega! Pega!

Estava escuro e tudo que vi foram uns homens pulando em cima de algo. Pensei que fosse Quin, o Retriever Labrador, em mais uma tentativa de fuga, mas não, soube depois que foi um sujeito que invadiu o terreno da frente e que foi agarrado e levado ao posto policial.

Mais um ponto para Woody! Não fosse por ele, a casa invadida podia ser a nossa. Ele é nosso pequeno herói!

Agora, azar mesmo, foi o do colega de meu filho, que tinha deixado cair a carteira em meu carro, e que estava na mochila para ser devolvida, e que acabou roubada! Ele teve que cancelar cartões, tirar novos documentos, e ainda perdeu uns cinquenta contos que tinha nela!

A melhor idade e seus cuidados


As crianças crescem, e aos poucos deixam de ser crianças. Mas um cãozinho é uma eterna criança, mesmo que envelheça e necessite mais de nossos cuidados a atenções. Chegou o dia em que a única criança nessa casa era Woody, embora ele apresentasse cada vez mais as limitações da idade...

Aos dez anos ele estava muito incomodado com as protuberâncias que cresciam em volta de seu ânus, até que começaram a sangrar e exigiram de nós providências imediatas. Encontramos um veterinário de nome sugestivo: Falcão, na verdade um gato, e ele nos disse que Woody precisava retirar as glândulas perianais. Sugeriu também que aproveitássemos a ocasião para castrar nosso cão.

__ Castrar por quê? Ele vai engordar, ficar moleirão e quem sabe deprimir. Não foi castrado até agora e nem vai ser!

E todos nós concordamos com meu marido. Mas a cirurgia para retirada das tais glândulas foi feita com sucesso, e o espantoso é que nosso bichinho rejuvenesceu alguns anos! Voltou a pular, a correr e a ter a mesma disposição de quando era mais novo!

Aos doze anos, próximo a data de seu aniversário, outro problema surgiu. Eventualmente, ao correr muito, ele apresentava dor nos quadris e mancava por alguns dias. Contornávamos a situação com baixas doses de corticoide por poucos dias, mas desta vez foi pior. 

A filha mais velha viu quando ele escorregou no degrau da sala, caindo de mal jeito no chão. Dali em diante precisava de ajuda para se levantar, mancava nas duas patas traseiras, andando com muita dificuldade.

Voltamos no veterinário gato com nome de pássaro. Ele avisou que provavelmente Woody precisaria de uma cirurgia na coluna por conta de alguma hérnia de disco. O ligamento cruzado de uma das patas traseiras também estava rompido. Pediu que fizéssemos um raio X e nos indicou alguns bons veterinários cirurgiões de coluna na cidade.

No consultório de exames encontrei alguns outros cãezinhos em situação semelhante ao nosso. Havia uma salsichinha com hérnia de disco cervical, sua dona era veterinária e sua mascote seria operada por um colega dela em que tinha total confiança, o doutor Rogério.

Entre os nomes indicados, com graduações no exterior em cirurgias veterinárias, acabei optando em levá-lo ao doutor Rogério. No dia Woody deu uma de macho, e nem mancou nem nada. O veterinário o apertou de todo jeito, e o cão, mesmo visivelmente incomodado, nem gemeu.

__ É valente mesmo este cachorrinho!

Disse o doutor. Por conta da idade, ele resolveu tentar um tratamento menos invasivo. Receitou pílulas de condroitina e glucosamina, fisioterapia e acupuntura. E eu nem sabia que os tratamentos para animais estavam tão especializados assim! Mas fiquei feliz com a ideia de que nosso animalzinho iria escapar de uma cirurgia de coluna desta vez. Não custava tentar. Talvez depois fosse preciso fazer uma cirurgia por conta do ligamento rompido na pata traseira.

Já na primeira pílula sentimos sua melhora. As doutoras Lívia e Rebeca viriam em casa para as sessões de fisioterapia e acupuntura. Foi mais uma maravilhosa surpresa, Woody melhorava rapidamente após cada sessão.

As sessões aconteciam no salão. No começo ele ficava meio ressabiado, com todos aqueles aparelhos que davam pequenos impulsos eletromagnéticos, e também com aquelas agulhinhas e o bastão de fumaça, mas lá pelas tantas ele relaxava e até dormia. Depois de cada sessão ele só tinha tempo de andar até sua cama e desmaiar por várias horas seguidas. Impressionante o efeito que faz!

Livia tem o talento de atrair animais. Na primeira sessão em que foi lá em casa, uma família inteira de micos ficou pulando na cerca viva. De outra vez ela encontrou um enorme jabuti atravessando a pista, parou o carro e o pegou. Levou para casa do namorado que era ali perto. De vez em quando também achava animais perdidos, que eram levados para sua casa, que já contava com alguns cães e gatos. Coisas de veterinários...

As sessões foram sendo mais espaçadas a cada mês, e depois do quinto mês, não mais foram necessárias. A não ser quando Woody descia correndo a escada e escorregava nos últimos degraus. O jeito então era chamar a moças para mais alguma sessão, e ele ficava novinho em folha.

Depois de algumas quedas desastradas resolvi comprar uma grade para colocar na escada. Ficava feia, atrapalhava nossa passagem, mas era pelo bem de nosso amiguinho!

Afinal a casa já vinha sofrendo modificações nos últimos tempos. Ganhou 15 metros de tapetes de borracha, pela sala, hall e cozinha. E a chaise-longue, de alcunha "daisy", foi doada ao nobre animal, uma vez que ele tinha dificuldades para subir nos outros sofás da casa. Era agora a cama oficial de Woody, além de sua outra cama na sala, e seus amiguinhos de pelúcia!
Posso dizer que fizemos adaptações para um cão idoso. Nosso bom e velho amigo foi ficando cada vez mais mimado e cheio de cuidados! E não houve como não fazer comparações com o vovô, meu pai, de quase noventa anos: Ele já está mais surdo que o vovô! Está manhoso para comer que nem o vovô! Está carente que nem o...! Ele está perdendo massa muscular, igualzinho ao...! E assim por diante.

De alguma forma a velhice de nosso cão nos ensina a ter paciência e compreensão com os processos da vida. E eu já avisei a eles, os filhos: quando eu ficar velha, quero ser tratada que nem vocês tratam o Woody!

Bom, com certeza o mundo seria um lugar maravilhoso de se viver, se todos pudessem ser tratados com os cuidados e os carinhos que dispensamos aos nossos queridos animais de estimação! 

Aproveito também para agradecer ao doutor Rogério, e as doutoras Lívia e Rebeca, que dispensaram os cuidados necessários ao nosso nobre amigo, obrigada!

(fotos: Woody na fisioterapia com Lívia; Woody sobre seus tapetes de borracha durante a limpeza da sala; na escada que se tornou perigosa para ele.)

Comida de cachorro? Nunca mais!



Quem disse que ração é uma boa comida para seu cão? Antigamente não tinha ração, minha Princesa, uma Pequinês branca de manchas pretas, viveu quinze anos, sem nunca provar ração. Eu preparava para ela arroz, com cenoura e miúdos de frango, e ela sempre foi uma cachorrinha saudável. Meu marido concorda: vai comer só ração, para ver se é bom!

E, desta forma, nunca demos somente ração para Woody. Ele comia ração misturada com um pouquinho de nossa carne ou frango do almoço. Ele gostava também de outras coisas, roubou e comeu muito pão com queijo do menino pequeno, e dia de jogo na sala sempre tinha pipoca a mais para ele. Com o passar do tempo adquiriu hábitos mais saudáveis, como comer uma a duas maçãs por dia, ou eventualmente uma pera.

E é claro, os irresistíveis biscoitos caninos. O que eles põe lá dentro? Houve um tempo em que imaginávamos que tinha uma droga muito viciante nos tais biscoitos, para ele gostar tanto. Nosso cãozinho nunca enjoou dos biscoitos, comia dois pela manhã, e talvez mais um à tarde. Na verdade ele pedia biscoitos a todos que acordavam na casa, tentávamos dar somente dois, mas eventualmente ele conseguia bem mais...

Se ele encontrasse meu marido na cozinha ou na sala em seu lanche da madrugada, ele ganhava mais alguns biscoitos salgados de gergelim. Na verdade ele tinha um grande apetite, e quando ficava mais roliço, a gente dava uma segurada, fazia campanha em casa para não dar lanches extras para o cão e deixava sua alimentação mais light. E tome de maçã!

Mas aos treze anos ele já não estava mais tão disposto para a comida, e tinha perdido peso e massa muscular. Ele catava os pedacinhos de carne ou frango da tigela, e deixava a ração. Passamos a comprar aquelas latinhas de pasta ou pedaços de carne ou frango, e misturar com a ração. Ele comia e depois de um tempo enjoava.

Então eu troquei a marca e o tipo de ração. Fui para as mais caras, tentei a "senior", tentei outros tipos, voltei para a antiga, e por fim desisti! Ele não queria mais comer nem ração, nem latinha! Pensei que deve haver um sistema de auto-regulação para os cães, e que na sua idade aquela comida já não estava mais lhe fazendo bem.

Fui no Google pesquisar e encontrei a alimentação natural para cães. Nada muito diferente do que preparava para a Princesa em minha mocidade. Vamos lá, comprei arroz integral, muitos legumes e miúdos de frango.

Gente! O cheiro era uma delícia! Todo mundo que passava pela cozinha perguntava o que tava cheirando tão bem! Tenho certeza que a comida também estava uma delícia. Preparava uma panela grande, e guardava na geladeira por alguns dias. Para ficar mais no capricho ainda colocava uma folhinha de louro, alho (é bom para o sistema imunológico), e um ramo de hortelã (para bom hálito!), um pouquinho de óleo de girassol (para lubrificar o intestino) e uma colherinha de sal.

Um verdadeiro luxo! Ele adorava a abóbora, comia a beterraba e a cenoura no enredo, mas gostou também da batata doce. Eu já preparava a comida da família, e já me perguntei milhões de vezes: por que ainda faço a comida todos os dias? E a resposta é só uma, eu gosto da minha comida e pronto! Como a família concorda, creio que cozinho bem, e que Woody também merece ter a comida preparada por mim.

Mas depois de algumas semanas e o peso recuperado, ele passou a fazer onda novamente. Catava a comida, deixava os legumes. Então tirei os legumes. Ficou mais fácil, arroz integral, miúdos e os detalhes. Ele voltou a comer.

Woody estava entrando em uma fase que chamei de "equilíbrio delicado", ele realmente estava bem, tomava seus comprimidos de glucosamina e condroitina, se alimentava com qualidade, e passeava todos os dias no condomínio acompanhado por um de nós. Tinha dias em que estava mais animado, dias mais preguiçoso, igualzinho ao vovô!

Dormia muito, esquecia do banho de sol das onze horas e precisávamos convencê-lo a ir para o quintal pegar sol. Deu de gostar de tomar banho de chuva, logo ele, que nunca gostou de chuva, dias nublados e frios. Quando víamos ele estava lá fora no meio da chuvarada, voltava encharcado, nós o secávamos mas daqui à pouco ele estava de novo todo molhado! Será que ele gostava da massagem com a toalha? Cãozinho safado, nosso Woody!
(Fotos: Woody já mais magro; com seu bigode de beterraba; e depois do banho de chuva e da toalha)

Pouco antes do Carnaval


Como eu já disse, os filhos crescem. Um dia abrem as asas e solam um voo rumo aos seus sonhos... É assim que tem que ser, é assim que é.

Foi assim com nossa menina mais velha. Um dia deixou de ser menina, virou mulher, formou-se com louvor, e decolou para Nova Iorque, para fazer a residência médica. Desta forma nosso ninho começou a esvaziar. Isto foi no final do primeiro semestre do ano passado.

Fui com ela arrumar seu pequeno apartamento, que nós chamamos de cafofo! Dá para hospedar mais dois, estratégia para a visitarmos sempre que pudermos. Logo depois nos reunimos todos lá para passar meu aniversário e de meu marido. E desde então ela não passa mais que dois meses sozinha, vão os irmãos, vão os amigos, vai o namorado, e ela volta e meia tem companhia.

Depois foi o filho mais novo. Decidiu partir para São José dos Campos, e preparar-se para estudar engenharia naquela cidade. E isto foi no início deste ano. Não conseguimos dizer nada ao nos despedirmos dele, apenas nos abraçamos, os olhos debulhados de lágrimas. Mas é assim que tem que ser, ele vai em direção aos seus sonhos, e nosso ninho fica um pouco mais vazio.

No cafofo dele não cabe mais ninguém, ele já o divide com mais cinco rapazes. Mas sempre que dá uma folga nos estudos, ele vem nos visitar.

Ainda tínhamos a menina do meio, e um cachorrinho idoso. Ela é era a mais apegada a ele, e eu lhe dizia, ou pensava dizer: ele não vai durar para sempre, precisamos nos preparar. Mas será que alguém está preparado para a partida daqueles que amam?

Ela o tratava que nem um neném, falava com ele como as mães falam com seus bebês, e mesmo já surdo, só de vê-la, ele começava a tremer-se todo. Pare com isso, eu dizia, ele está reagindo como um bebê carente. Ela então aprendeu a ser carinhosa sem ser mamãe demais, e ele não mais se tremeu.

Foi no início do ano que desconfiei que Woody estivesse diabético. Às vezes ele urinava na sala de jantar, ou por que estava chovendo à noite e el não passeou, ou por que não abriram a porta para ele de manhã cedo, ou por pura sem-vergonhice (nunca vamos saber exatamente...). O caso é que as formigas cercavam sua urina e desconfiei do açúcar alto.

Talvez isso explicasse a perda de peso e de massa muscular, e o maior volume abdominal.

Tentamos em vão tirar um gota de sangue para teste. Levei-o então ao doutor Rogério com o kit teste de glicose na bolsa. É do lado interno da orelhinha que se tira o sangue, eu aprendi. Mas a glicose deu normal, e o doutor falou que o animal pode ter picos de glicose alta, e ainda assim não ser diabético.

Mas apalpando o cãozinho ele desconfiou de algum problema no fígado e sugeriu que fizéssemos um ultrassom. Eu marquei o exame para a outra semana. E em casa testamos sua glicemia por algumas manhãs, Woody não tinha diabetes.

Pensei a cada dia da semana se deveria levá-lo para fazer o exame. E se encontrássemos algum problema, o que iríamos fazer? Talvez fosse melhor não saber de nada, Woody tinha já quatorze anos, e pensei o quanto seria sofrido e arriscado uma cirurgia nesta idade, ou um tratamento quimioterápico. Por fim desmarquei o ultrassom.

Marcamos de visitar a menina mais velha uma semana antes do Carnaval, e foi mais ou menos um mês antes de nossa viagem que Woody teve uma diarreia. A sala de jantar amanheceu toda suja. Pensei que fosse um episódio isolado, mas no noite seguinte a mesma coisa aconteceu.

O equilíbrio delicado da saúde de nosso cãozinho estava ameaçado. Percebi que ele estava perdendo peso rapidamente. Tratei de lhe fazer tomar, com uma seringa, água de hora em hora, e também suco caseiro de maçã. Estávamos no final de semana, e ele em observação. No domingo ele evacuou na calçada em frente da entrada da casa, e bem no meio um poça de sangue. Parece até que ele fez isso para que víssemos. Será que ele vai nos deixar antes do Carnaval? Pensei apreensiva.

Meu marido pensou em um diagnóstico e eu corri para comprar o remédio. Surtiu efeito, naquela noite ele não evacuou, e nem nas outras. O tratamento levava uma semana e antes disso ele perdeu completamente a vontade de comer. Olhava para a tigela, cheirava, e ia embora. E ele ainda nem havia recuperado o peso perdido nos últimos dias.

Lembramos que a medicação tinha um gosto de lata, tomá-la três vezes ao dia podia estar estragando seu apetite. O jeito foi suspendê-la, e o cãozinho voltou a comer! Rapidamente ele ganhou peso e saiu da zona de risco!

Pude então falar com os filhos que estavam longe e não sabiam do ocorrido: Woody escapou desta! Acho que ele vai viver muito ainda!

(Foto: Woody com seu amigo jacaré).

Drama

Fazia parte da rotina diária de Woody um passeio completo pelo condomínio, mesmo que não representassem muito mais do que uns duzentos e cinquenta metros, sem esta volta parece que seu dia não estava completo.

Ele pegava quem estivesse disponível no momento, fosse pela manhã ou à tarde, ou mesmo pela manhã e tarde, e retornava feliz e cansado a sua cama na sala.

Outrora valentão, Woody já não latia ou ameaçava a cachorrada da vizinhança. Passava ao largo deles, indiferente aos seus latidos ou apelos. Logo em frente Quin, o Retriever brincalhão, chorava por uma chance de brincar. Que chance que nada, com todo seu peso esmagaria nosso cão ancião em dois tempos.

Depois havia os temíveis cães do vizinho ao lado. Não há muito tempo atrás lá moravam dois destemidos cães de guarda da raça Doberman e a Cocker Mel. Na verdade eu sempre me senti mais segura com suas presenças alertas durante à noite, não se referindo a Mel, que morava dentro da casa. Os três partiram com problemas de saúde e de idade recentemente.

Chegaram novos moradores. Um casal de irmãos, a princípio lindos cãezinhos que prometiam crescer muito. E cresceram, como cresceram. Mais pareciam dois leões, de pelo curto, amarelo/avermelhado. Uma mistura interessante de Fila, com Pastor Alemão, e uma pitada de Rotweiler. Pensei que estaria ainda mais segura com eles por perto.

Eles tinham pouco mais que um ano de idade, mas o macho latia alto e forte, colocava o focinho ameaçadoramente entre as grades do muro, nos domingos em que estava solto e via Woody em seu passeio diário. Não podíamos deixá-lo passear na calçada contígua.

Mais adiante outro vizinho tinha três pequenos cães machos. Eles latiam desesperadamente e Oliver postava-se de forma pronta ao ataque. Mas nada disso parecia perturbar o passeio feliz de nosso cãozinho. Ele contornava os obstáculos caninos passando um pouco mais longe, sem olhar para o lado, sem latir, sem demonstrar medo ou arrogância.

Eu e meu marido viajamos para a casa da menina mais velha em Nova Iorque, uma semana antes do Carnaval. Woody ficou com a menina do meio e Lu. No Carnaval a menina também viajou e Woody ficou aos cuidados de Lu. Ele estava muito bem, comia bem, fazia festinha para suas poucas companhias, passeava diariamente pelas mangueiras do condomínio.

A menina voltou. No domingo deu um bom banho de mangueira no quintal no cão, com o qual ele estava acostumado todos os finais de semana. Depois, como sempre, lhe secou com o secador e lhe fez uma escova, com o animal deitado na daisy.

Sua amiga também estava em casa, e à tardinha Woody pediu para passear como de rotina. Ele saiu no galope, a menina atrás, mas desta vez tudo foi diferente e inesperado. O grande cão do vizinho do lado forçou com seu focinho a grade do muro, e esta cedeu. Os dois cães passaram e vieram para cima do pequeno cão, que inocente corria em direção ao perigo.

Foi rápido demais, a amiga assustada voltou para a casa, gritando. A garota não teve com alcançar o cãozinho à tempo. Os dois cães pularam sobre ele numa luta feroz. Para ela o tempo pareceu uma eternidade, um tempo sem fim até que ela os alcançasse, até que ela se metesse na luta e arrancasse de lá seu querido amigo.

Ela o passou por cima da grade para a amiga do outro lado. Esta depositou o cãozinho ensanguentado sobre a grama. O vizinho seguiu os gritos e latidos e passou pela cerca levantada, por onde passaram os cães momentos antes. Prendeu-os em casa antes de ver todo o acontecido. Então voltou, entrou em nossa casa e tentou colocar Woody de pé, embora sujo de sangue ele não apresentava cortes.

Visivelmente estressado e cansado da luta ele tornou a deitar na grama. A menina chorava desesperadamente, mas não parecia estar muito machucada, além de escoriações pelos braços e pernas. Ele então colocou os dois no carro e os levou para o hospital veterinário.

(Foto: Woody em seu passeio pelo condomínio).

Uma cirurgia de emergência



Somos amigos de nossos vizinhos, mais ainda destes que são os donos dos dois grandes cães. Por uma questão de afinidade, creio eu. De alguma forma entre nós existe apoio mútuo e troca de gentilezas.

Naquele domingo fatídico, meu marido, a filha mais velha e eu estávamos no supermercado próximo ao apartamento dela em NY. Era de tarde e meu celular tocou. Vi que era o meu vizinho e não atendi por que nos recusamos a pagar a operadora quando em viagem ao exterior. Ele ligou de novo, e ainda mais uma vez. Pensei que talvez houvesse algo sério para ele insistir em me falar.

Nossa filha disse para eu voltar ao apartamento, onde poderia entrar em contato com ele pelo Whatsapp ou  pelo Facetime. Concordei que era a melhor coisa a fazer e fui embora. No apartamento consegui entrar em contato com o vizinho, ele estava no hospital veterinário com Woody e minha filha do meio.

Devo dizer que meu vizinho é um cara tranquilo, e foi com tranquilidade que ele tentou explicar o acontecido. Tanta calma que achei que havia algum exagero naquela situação. E eu também sou calma, e otimista sempre acredito que as coisas não são tão difíceis quanto possam parecer.

__ Olha houve um acidente hoje à tarde no condomínio. Os cães conseguiram sair do terreno e avançaram sobre Woody e sua filha que estavam passeando. Eles estão bem, ela só sofreu alguma escoriações, mas de toda forma achei melhor trazê-los até o hospital veterinário. Eles examinaram Woody, e ele não tem nenhuma fratura. Mas acharam melhor fazer um ultrassom, observaram que há uma hemorragia interna e um tumor no fígado.  Ele precisa de uma cirurgia, e precisam da autorização de vocês para isso.

Quando ele falou de hemorragia interna e tumor no fígado me veio à mente o exame que eu havia desmarcado, há apenas dois meses atrás. Se o tivesse feito saberia deste tumor e uma possível hemorragia, de modo que pensei que não havia nada novo ou urgente, um problema que eu poderia resolver quando retornasse a Brasília em dois dias. Eu sabia que o vizinho era uma pessoa cuidadosa, e tudo me pareceu um excesso de zelo.

Foi isso que eu falei para ele, que resolveria assim que chegasse. Meu vizinho pediu para que eu falasse com o veterinário, mas a conexão estava ruim e caiu mais uma vez. Quando conseguimos contato novamente meu marido havia chegado, e era da mesma opinião que eu. Ao fundo podíamos ouvir o choro convulsivo de minha filha do meio, mas também não havia nada há estranhar, já que ela é muito emotiva e se desesperava com qualquer problema relacionado como o cachorro.

O veterinário tentou explicar novamente a situação, apesar das falhas da internet, e por fim afirmou que se a cirurgia não fosse realizada, nosso cão morreria, e ele já não falava da forma contida e calma do meu vizinho. A menina ao fundo chorava ainda mais forte, enquanto ele afirmava e tornava a afirmar que Woody ia morrer. O que fazer? Opere, opere! Disse por fim meu marido.

Mais tarde naquela noite soubemos que a cirurgia tinha transcorrido bem e que Woody estava na UTI, mas com os sinais vitais preservados e a hemorragia estancada. Ele também havia recebido uma transfusão de sangue, por conta de uma anemia já existente.

Levada ao hospital, minha filha também estava bem, embora com pulso inchado e dolorido, com algumas escoriações (algumas delas causadas pelo desmaio e queda que teve no hospital veterinário), e um furo na mão por conta dos dentes dos animais.

Pedimos aos nossos vizinhos que ficassem com ela, para que ela não dormisse sozinha. Eles ficaram e lhe deram medicação para dormir também a nosso pedido. No dia seguinte deixaram os compromissos e o trabalho de lado para dar atenção a garota e ao cão internado. Ela foi mais uma vez ao hospital, ainda estava muito nervosa e chorava muito, mas foi descartada a necessidade de tomar as vacinas anti-rábicas.

Enquanto isso nosso cãozinho se recuperava da cirurgia, e reagia bem. Mais tarde naquele dia conseguimos falar com nossa filha e ela contou um pouco do que havia ocorrido. A ficha então começou a cair, pois tínhamos imaginado que ele havia rolado no asfalto, caído, qualquer coisa assim. Imaginei que se aqueles dois cães tivessem pego Woody de verdade, o teriam estraçalhado em dois minutos.

O que aconteceu é que eles fizeram como Woody fazia quando pegava um lagarto ou um camundongo, ele nunca os cortava, mas os mastigava na boca, o suficiente para matá-los. Ele também, foi amassado na boca dos cães, o suficiente para fazer sangrar o tumor que já havia, e causar também uma hemorragia no peritônio e sobre a cápsula renal direita.

Naquela noite de segunda-feira pegaríamos o avião de volta, e chegaríamos na terça-feira pela manhã, então eu poderia estar presente e fazer o que fosse preciso. Mas o caso é que eu já não estava mais tranquila.

Uma semana difícil para todos nós


Chegamos na terça-feira pela manhã. E nesta mesma manhã fui, com meu vizinho e minha filha, ver Woody no hospital veterinário. Em um colchão em um berço de metal, com soro e sonda, limpo, nós o encontramos. Levantou a cabeça, visivelmente nos reconheceu, ganhou beijos e carinhos. A cicatriz da cirurgia estava limpa, não havia inchaço. Embora debilitado, eu pude crer que ele voltaria para casa!

Ele havia perdido alguns dentes na luta, mas havia se livrado de um tumor no fígado do tamanho de uma laranja, quem sabe se livre do tumor que lhe consumia aos poucos ele não teria uma sobrevida maior? A expectativa era de mais dois ou três dias na "UTI" canina. A menina do meio não parava de chorar, e ralhei com ela, pois não era mais momento de se desesperar...

Quanto aos meus vizinhos, eles realmente deram todo apoio possível, tanto ao Woody, quanto à minha filha. E tanto eles, como nós, merecíamos que esta história tivesse um final feliz!

Retornei à tarde com minha filha, mas Woody já se apresentava visivelmente mais cansado do que pela manhã. Talvez pela retirada da analgesia do soro, talvez pelo esforço da manhã, ponderei. E a menina chorando...

Ao chegar em casa acendi uma vela para ele na sala, perto de seu cantinho de dormir. Coloquei sua foto ao lado, rezei. Às vezes é tudo o que se pode fazer.

Nos dias seguintes tornei a ficar com ele pela manhã e à tarde. Ficava em torno de uma hora, dava-lhe água e papinha na seringa. Decidi não levar mais a garota, mandei-a ir ao trabalho, à faculdade, mas ela desmaiava, não dava conta e voltava para casa. Eram momento difíceis para todos nós. Woody já não levantava a cabeça, não mais se mexia, não apresentava melhoras significativas.

Seu olhar ainda vivo, uma luta incessante entre a vida e a morte, embora seus sinais vitais estivessem normais. A cada dia eu me afligia, ele emagrecia e a cada dia ficava mais distante a possibilidade de seu retorno ao lar.

A filha em Nova Iorque acompanhava nossos boletins diários sobre seu estado, também em estado de alerta, também se emocionando. O filho mais novo ainda não sabia de nada, estava fazendo provas, como bombardeá-lo com estas notícias?

Todos no hospital já acompanhavam seu caso, desde as recepcionistas. Conversávamos com os  médicos de plantão, tínhamos todos esperança. Na quinta e sexta-feira ele apresentou discreta melhora. Combinamos com o médico que o levaríamos para casa no sábado à tarde. Ele receberia ainda mais uma transfusão, para melhorar seu estado geral. Embora ele estivesse muito debilitado e necessitasse de cuidados intensivos, asseguramos que poderíamos lhe dar este suporte.

Livre do soro e em casa ele poderia receber carinho e todos os cuidados necessários para se recuperar. Eu sabia que seria uma grande tarefa, e tinha certeza que daríamos conta do recado. Mais tarde, se fosse necessário a fisioterapia, chamaríamos Lívia e ela nos ajudaria.

No sábado, antes de ir pegá-lo montei uma "enfermaria" na sala. Coloquei o tatame junto da janela da sala, para que ele pudesse receber o sol e a brisa. Em cima sua cama, jornais, seus amigos de pelúcia, exceto a arraia, que eu havia levado ao hospital, para que ele pudesse usá-la de travesseiro.

Partimos animados, com uma manta para trazê-lo. Mas o universo não planejou da mesma forma. Embora ele tivesse recebido bem a transfusão e se apresentasse melhor à noite, ele piorou durante o dia, e começava a perder a consciência. Não dá para descrever o que vimos, o abismo que sentimos. Foi combinado que uma sonda seria passada para sua alimentação, mas naquele momento eu desejei que ele partisse, sabia que estávamos em um caminho sem volta, e não dava mais para vê-lo sofrer.

Corajosamente a filha do meio despediu-se dele. Voltamos silenciosos para casa. Ao chegar, eu apaguei a vela que esteve acesa por toda aquela dolorosa semana, e rezei para Kwan Yin. Pedi que ele, em seu processo evolutivo desconhecido para mim, fosse muito, muito abençoado em sua nova vida, do jeito que fosse, na forma que fosse. Em algum momento eu o vi no colo deste ser amoroso de luz, e soube que ela o levaria.

Logo depois o telefone tocou. Do hospital veterinário a médica me deu a notícia de que o coração de Woody parou. Eu senti alívio, senti-me também abençoada, e meu pedido atendido. Minha filha e meu marido entenderam. Havia tristeza e mais uma vez o choro da garota. Então eu senti o cheiro de Woody na sala.

De onde vinha? Eu me perguntava, andava tentando perceber de onde partia seu cheiro, como quando não tomava banho numa semana e podíamos sentir de fato seu cheiro a alguma distância. Não vinha de lugar algum, estava espalhado, pela escada, pela sala, pelo hall da casa. E dali à pouco não estava mais, partiu da mesma forma misteriosa que chegou...

(Foto: Woody e sua amiga arraia, que o acompanhou em seus últimos dias).